Moscou – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva compareceu nesta sexta-feira (9) às cerimônias dos 80 anos da vitória sobre a Alemanha nazista na histórica Praça Vermelha, ao lado de Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China. Convite estratégico de Moscou, a aparição do chefe do Planalto em solo russo buscou destacar o Brasil como elo de diálogo entre as potências envolvidas na guerra Rússia-Ucrânia.
Logo na abertura do evento, Lula teceu elogios à aliança antifascista que uniu as nações contra o nazismo, enfatizando a necessidade de preservar a paz em tempos atuais: “Assim como nos unimos contra o mal de ontem, devemos nos unir contra os conflitos que ameaçam o mundo hoje”, afirmou. O discurso foi recebido com aplausos tolerantes, mas também levantou questionamentos sobre o alinhamento diplomático do Brasil.
De um lado, diplomatas destacam o gesto como demonstração de independência brasileira na cena internacional. “O Brasil não pode fechar portas; precisamos manter canais abertos tanto com o Ocidente quanto com o Oriente”, avaliou um assessor do Itamaraty sob condição de anonimato. Do outro, opositores no Congresso condenam o ato como sinal de complacência com o Kremlin.
“Em plena guerra, Lula vai à festança de Putin e ignora os clamores de Kiev por sanções mais duras”, criticou um líder parlamentar de oposição.Além das autoridades máximas, cerca de 30 chefes de Estado e governo participaram do desfile militar e da solenidade de depósito de coroas de flores ao pé do túmulo do Soldado Desconhecido. A agenda oficial do presidente inclui ainda encontro bilateral com Xi Jinping, previsto para este sábado, no qual ambos devem discutir cooperação comercial e segurança alimentar.
No Brasil, setores do agronegócio e da indústria enxergam oportunidades de ampliar exportações, enquanto especialistas em relações internacionais chamam atenção para o risco de desgaste junto a aliados tradicionais. “É um jogo de xadrez: o Brasil quer vender, mas não pode comprometer sua credibilidade como pacificador”, pondera a cientista política Ana Carvalho.
Ao encerrar sua fala, Lula sublinhou que retornará ao Brasil com “mensagem de aproximação e diálogo”, prometendo acionar seu “trio de forças” — União Europeia, Nações Unidas e blocos sul-americanos — para articular uma trégua duradoura entre Moscou e Kiev. Resta saber se o gesto será recebido como ponte para a paz ou encarado como simpatia injustificável ao lado de líderes acusados de violar direitos humanos.