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Aprovação de governo vira voto na eleição? Leia análise de Felipe Nunes

Bateria de pesquisas estaduais da Quaest mostra que Lula transforma, em média, 76% da sua aprovação em intenção de voto.

Toda campanha presidencial produz a sensação de que a eleição pode ser reinventada a cada semana. Uma entrevista ruim, uma denúncia, um debate ou uma peça de propaganda parecem capazes de mudar tudo. Esses eventos importam. Mas eles atuam sobre um terreno que já existe. E, para um presidente que tenta a reeleição, o dado mais importante desse terreno é a avaliação de seu governo.

A aprovação não determina o resultado, mas define o tamanho do reservatório eleitoral disponível. A campanha decide quanto desse reservatório será convertido em voto. É justamente essa passagem — da avaliação do governo para a escolha na urna — que a nova bateria de pesquisas estaduais permite observar.

Nos 25 estados reunidos no gráfico, a intenção de voto em Lula equivale, em média simples, a 76% da aprovação de seu governo. A relação é muito forte: a correlação entre as duas medidas chega a 0,99. Onde Lula é mais aprovado, tende também a receber mais votos; onde a aprovação cai, sua intenção de voto recua quase na mesma direção. Isso não é uma relação causal medida em laboratório, mas é uma associação descritiva poderosa — e politicamente intuitiva.

A média, porém, esconde diferenças importantes. No Rio Grande do Norte, Lula converte 90% da aprovação em voto. Maranhão e Sergipe chegam a 88%, e Piauí e Pernambuco, a 87%. Nesses lugares, a avaliação do governo é não apenas alta, mas eleitoralmente densa: o eleitor que aprova já está muito próximo de votar.

No outro extremo, Goiás e Roraima registram conversão de 61%, e o Paraná, de 64%. No Amazonas, apesar de uma aprovação de 54%, a intenção de voto fica em 38%, uma conversão de 70%. São estados em que há mais aprovação frágil: gente que reconhece aspectos positivos do governo, mas ainda não transformou esse juízo numa escolha presidencial. Essa distância é o espaço potencial da campanha — e também o espaço no qual a oposição pode impedir que simpatia administrativa vire voto.

O movimento inverso também ensina. Em São Paulo, Lula tem aprovação menor, de 37%, mas converte 78% em voto. A aprovação é estreita, porém relativamente consolidada. É um efeito compatível com a calcificação política: em ambientes muito polarizados, a identidade partidária protege um piso eleitoral mesmo quando a avaliação geral do governo é desfavorável.

Duas réguas, duas taxas de conversão
Para comparar o presente com eleições anteriores, é preciso evitar uma armadilha metodológica. Pesquisas podem medir a popularidade de duas maneiras. A primeira pergunta se o eleitor aprova ou desaprova o trabalho do presidente. É uma régua ampla. A segunda pede que ele classifique o governo como ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo. Aqui, “avaliação positiva” corresponde apenas à soma de ótimo e bom — uma régua mais exigente.

Essa diferença altera completamente o denominador. No Datafolha de agosto de 2026, Lula tem 33% de ótimo ou bom, 48% de aprovação binária e 39% de intenção de voto no primeiro turno. Portanto, ele converte 118% do núcleo positivo em voto, mas 81% da aprovação ampla. Não existe contradição: parte dos eleitores que classificam o governo como regular, ou que simplesmente aprovam o trabalho do presidente sem entusiasmo, também declara voto nele.

A mesma dinâmica aparece na história. Nos quatro últimos ciclos em que um presidente eleito tentou a reeleição — FHC em 1998, Lula em 2006, Dilma em 2014 e Bolsonaro em 2022 — a intenção de voto da reta final equivaleu, em média, a cerca de 110% da avaliação ótima ou boa medida pelo Datafolha. Em todos os casos, o candidato governista foi além do núcleo que avaliava sua administração positivamente.

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